Argentina caminha rumo ao extremismo de direita nas eleições presidenciais
JOTA.Info 2023-08-14
A Argentina se move à ultradireita. O candidato Javier Milei, considerado por muitos o Bolsonaro argentino, ganhou as primárias argentinas, realizadas neste domingo (13), contrariando todas as expectativas geradas pelas pesquisas de intenção de voto mais recentes. Esqueça as joias da família Bolsonaro — ou melhor dizendo, os objetos apropriados pelo ex-presidente e seus familiares num claro assalto ao Estado brasileiro. Também ignore a entrevista de Larissa Manoela ao Fantástico, na qual ficou exposta a vulnerabilidade dos laços familiares em meio a disputas por dinheiro.
Por mais que esses sejam assuntos relevantes, com implicações no campo jurídico, nada tem mais potencial de moldar setores significativos da sociedade e economia brasileiras nos próximos anos do que uma possível vitória de Milei em outubro na corrida para a Casa Rosada. Autointitulado anarcocapitalista, defende uma redução substancial do papel do Estado na economia e uma política de lei e ordem bastante dura, ao melhor estilo da direita radical que valoriza a ação policial bruta em detrimento das atividades de inteligência que poderiam prevenir o crime comum com muito mais eficácia.
Na economia, Milei já deu sinais de ser contra o Mercosul. Assim, caso vire presidente, o candidato pode liderar a saída da Argentina do bloco, num movimento chamado de Mercadiós (Mercosul mais adeus em espanhol). O Mercadiós faz todo sentido para quem defende a dolarização da economia e a implantação de mudanças rumo a uma liberalização unilateral do comércio, a qual só faz sentido caso Buenos Aires deixe o mercado comum. Isso porque, sendo uma união aduaneira, o Mercosul implica em todos os países-membros manterem uma tarifa de importação em comum, salvo exceções.
Qualquer governo brasileiro — seja esquerda ou à direita — teria grandes dificuldades de se engajar numa abertura unilateral em conjunto com a Argentina. Isso porque ainda há muitos interesses protecionistas no Brasil, principalmente na indústria, em segmentos como o automotivo e os produtos de linha branca eletrodomésticos.
Assim, nesse cenário, os planos de reindustrialização tão propalados pelo governo Lula 3 teriam de ser repensados. Uma saída da Argentina do Mercosul jogaria o Brasil a buscar acordos econômicos — mas não necessariamente de livre comércio — com mercados do Norte Global que procuram fazer o chamado nearshoring ou reshoring, ou seja, a transferência de investimentos em manufaturas da Ásia, em particular a China, para países aliados e/ou geograficamente mais próximos. Porém, neste caso, o nosso eixo de industrialização se deslocaria do Sul-Sudeste para os estados do Norte-Nordeste, que estão mais próximos de Europa e Estados Unidos.
Considerando que a coalizão governista dominada pelo peronismo não tem chances de se manter na Casa Rosada, resta agora ao governo brasileiro e àqueles industriais que ainda dependem do mercado argentino para sobreviver torcer por uma vitória do Juntos pela Mudança. Não me parece que a candidata do bloco, a conservadora Patricia Bullrich, vai querer retirar a Argentina do Mercosul de imediato. Pode, sem dúvida, querer uma abordagem mais liberal, que favorece, por exemplo, a ratificação e implantação do acordo Mercosul-UE, cujas negociações não devem ser concluídas antes da troca de poder na Argentina em dezembro próximo.
No caso de vitória de Milei, pode-se esperar grande turbulência na Argentina, com grandes repercussões negativas no plano socioeconômico. Ironicamente, pode ser a extrema direita, liderada pelo “Bolsonaro argentino”, que transformará nosso principal vizinho numa Venezuela, ao ponto de haver grandes fluxos migratórios rumo ao Brasil, que ainda tem economia estável muito embora sem grandes índices de crescimento econômico.
Assim, a Argentina segue na sua decadência político-econômica que, com raros voos de galinha, já dura desde o pós-Segunda Guerra Mundial. Se há alguma lição para tirar da tragédia argentina, ela se resume no seguinte: governos centristas, principalmente à esquerda, precisam levar mais a sério as demandas populares na área de segurança pública. Na própria questão econômica, não se pode garantir privilégios a funcionários públicos sem levar em conta as aspirações e a demanda por dignidade daqueles mais pobres que, fora da proteção robusta do Estado, não se contentam com benefícios sociais.
Contra anarcocapitalismo e distopias afins, é necessário erguer um Estado responsável, que esteja atualizado com as novas realidades do mundo do trabalho em que vínculos duradouros são exceção em meio à uma economia, que se goste ou não, é cada vez mais dominada por oscilações e por formas de trabalho avulsas. Cabe pensar em formas de proteger os cidadãos que se veem como empreendedores de si mesmos, embora componham o subproletariado explorado por demagogos na política e oportunistas do livre-mercado.