Ao capturar Maduro, Trump lança geopolítica obscena da pós-hipocrisia
JOTA.Info 2026-01-12
Nas últimas décadas, nos acostumamos a um velho roteiro geopolítico: em nome da democracia e dos direitos humanos, os Estados Unidos invadem um país estrangeiro, alegando o crescimento do terrorismo, a necessidade de proteger civis, entre outros princípios basilares das normativas ocidentais. Foi assim, seja sob o comando de democratas, seja em presidências republicanas.
Ato reflexo, oposições à esquerda ao redor do mundo denunciam: mera desculpa para tomar recursos naturais e expandir sua zona de influência, o velho “imperialismo”. Foi, grosso modo, essa polarização – entre, de um lado, uma direita conservadora defensora da hegemonia ocidental e, de outro, uma esquerda cética das normas e de sua violência interna – que ditou o debate geopolítico entre o fim da Guerra Fria e o colapso de Wall Street, em 2008, quando a chamada crise das democracias liberais começou a tomar forma.
Quase duas décadas depois, um novo paradigma geopolítico se consolida na aliança anti-Ocidente comandada pela Rússia de Vladimir Putin, em parceria com os Estados Unidos de Donald Trump, cuja incursão na Venezuela consolida o “realismo obsceno” característico deste novo tempo.
Agora, para a perplexidade da esquerda anti-imperialista, não há mais uma máscara discursiva para encobrir a violência ou mesmo um jogo de cena no concerto das nações. Tampouco têm eficácia as “denúncias” que revelam interesses “escusos” por trás da hipocrisia ocidental – antes mesmo de sequestrar Maduro, Trump já dizia em alto e bom som: “queremos nosso petróleo de volta”. Neste novo paradigma, a geopolítica das máscaras dá lugar à era da pós-hipocrisia.
Quais as suas características? Vamos ilustrá-la a partir de três paradoxos. Primeiramente, esqueça a explicação “fake news”. Embora não prescinda delas, a aliança Trump-Putin se distingue pelo seu realismo obsceno, isto é, a capacidade de repetir um discurso acrescido de seus elementos abjetos.
Da Europa fundamentalista, chamada de “democracia iliberal” por Viktor Orbán, passando pelas “operações especiais”, nome dado por Putin para sua invasão da Ucrânia, até a saga trumpista pelo petróleo venezuelano, o que vêm à tona são menos as (novas) mentiras do que as (velhas) contradições: o projeto da extrema direita consiste em perverter antigas normas para provar sua alegada podridão. Nas palavras de Steve Bannon, “inundar tudo com merda”.
Assim, mais do que propriamente um mentiroso, Trump seria um “fake genuíno” – para usar as palavras da historiadora Lydia Pyne. O que antes se escondia às margens da retórica oficial agora sobe ao centro. Uma paulada não apenas na esquerda anti-imperialista, mas nas próprias instituições ligadas à democracia, como o jornalismo.
Na sala de aula, costumávamos escutar que o bom exercício da profissão se confundia com o escrutínio do poder. Partíamos do princípio de que a ideologia funcionava escondendo as suas contradições de modo a provar-se fiel a princípios como a democracia, a igualdade, a transparência e o respeito perante o eleitor. Era um mundo pautado pelo constrangimento público. Já hoje escândalos públicos têm a validade de um Reels de Instagram. Não há cartilha de valores que resista a tal paisagem midiática e cognitiva.
Um segundo paradoxo importante dessa era pós-hipocrisia é que, ironicamente, quanto mais poderosa a extrema direita se torna, mais farsesca ela parece. Como dissemos, com Trump, o poder não serve ao encobrimento da sujeira; sujo é quem insiste em acreditar nas regras – desde sempre, acusadas por ele de “fraudadas”.
Como afirma o cientista político Ivan Krastev a respeito de Putin, inspiração trumpista: em seu regime, a mentira, antes de servir à manipulação, consiste num método de intimidação. Putin não mente para esconder as suas contradições, mas para mostrar que seu poder é imune a elas. Mais poderoso que um líder que esconde a verdade é aquele que a traz à tona, justamente, para provar sua obsolescência.
Nesse sentido, se engana quem atribui à clareza dos (escusos) propósitos trumpistas um motivo de otimismo. Ao contrário, ela é um sintoma da consolidação do seu poder no segundo mandato de Trump, quando a máquina do Partido Republicano, assim como a própria geopolítica, já se dobra à sua mente quase nada abstrata, para a qual só existem vencedores, perdedores e superlativos.
Um último paradoxo a ser enfrentado pelo campo democrático está na recuperação midiática de figuras como Hugo Chávez, ícone do discurso anti-imperialista. Ao que parece, Chávez e outros líderes do Sul Global veem na boca de Trump a prova de suas velhas razões. Uma vingança prazerosa na mesma medida em que trágica, pois o comandante está morto e a recuperação de sua figura serve menos à luta democrática do que ao gozo narcísico de alguns para quem só restou o conforto do passado.
Para os que insistem na coragem de enfrentar o presente, um primeiro passo talvez consista em admitir que a extrema direita, como bom malandro, aprendeu como ninguém a desmontar as peças do tabuleiro – inclusive, ou sobretudo, o discurso de seus antagonistas, que, num primeiro momento, celebram: com três décadas de atraso, a luta anti-imperialista, finalmente, ganha seu momentum.
A má notícia é que já não há mais impérios secretos a desmascarar, tampouco conspirações a desvelar. Como numa peça kafkiana, o labirinto da lei não esconde qualquer segredo: caíram as máscaras, o rei está nu e tudo segue funcionando normalmente. Pois, para nossa surpresa, foi ele mesmo quem puxou o lençol.