Memória e esquecimento na invenção do Brasil contemporâneo

JOTA.Info 2026-01-12

Os dois Globos de Ouro para O Agente Secreto consagram o cinema brasileiro. Para além de uma excelente história que fala diretamente à alma do nosso país, O Agente Secreto é uma obra excepcional do ponto de vista técnico e artístico. Tudo parece perfeito, a direção de arte, cenário, figurino, elenco. Wagner Moura está esplêndido fazendo dois personagens distintos.

Para quem tem mais de 50 anos de idade, é como caminhar pelas ruas do passado na vividez das suas cores. A memória é despertada pelas camisas abertas, com o bolso do lado esquerdo onde maços de cigarro – Continental, Hollywood, Kent – repousavam ao lado de canetas; a trilha sonora evocava as rádios AM e os sucessos apreciados por um Brasil real, distante da classe média intelectualizada de então; por um mundo analógico, sem a pressa, sem a ansiedade, sem a dispersão destes dias. Um mundo intenso onde se amava chorava, se ria apesar do sufoco político que adensava o ar.

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Nós três somos de uma geração que cultiva a memória de quem, ainda criança, viveu aqueles dias. E que encontram e se encontraram na estética e na arte daqueles anos. Que se fizeram intelectual e humanamente por aquela atmosfera tão densa quanto engrandecedora; observando artistas e amigos, mais velhos, que buscavam renovação, fôlego, esperança e um mínimo de sanidade na arte dos anos 1970. Talvez por isso mesmo, sentimos necessidade de destacar quatro pontos, já pedindo perdão por eventuais spoilers.

Em primeiro lugar, há um horizonte moral onde a história se desenrola. Logo nas primeiras cenas, vemos “um corpo estendido no chão” cru – “em vez de rosto e foto de um gol”: mais um pouco da violência de cada dia que, já então, não superava a indiferença. Esse corpo assombrará o protagonista. Ele é a própria expressão de um “mal” que contamina a todos.

Era o regime militar, mas, ao contrário de Ainda Estou Aqui, esse mal não está encarnado nos militares, no regime. É algo ainda mais grave, como se se tivesse abatido sobre o país um espírito que fomenta, tolera e naturaliza a violência e crueldade.

Em O Agente Secreto, não são militares contra “subversivos”, o exército contra guerrilheiros. O fosso é mais fundo: o mal comezinho dos pequenos e dos grandes poderes simbolizados por um burocrata/empresário; por policiais comuns que vivem o cotidiano da cidade de pessoas simples que dividem o tempo entre trabalhos braçais e crimes por encomenda.

O mal espreita a vida pacata de um professor universitário e fugitivos de uma perseguição sem nome. O filme mostra como, sob a ditadura, a violência torna-se comum, quase banal, incorporada à rotina, tal qual o apressado pingado e pão com manteiga na chapa de pé no balcão do botequim mais próximo

O segundo ponto é que a narrativa tem duas temporalidades: os eventos de 1977, no ocaso do regime, e os dias atuais. Nós acompanhamos os eventos nessas duas datas. Porém, numa guinada simplesmente genial, o ponto central da narrativa, aquele que nos revela o nervo dos eventos, as motivações para os personagens, aparece na forma de uma memória remota que, por acaso, cai nas mãos de uma jovem que, por razões que permanecem vagas, transcreve áudios captados em fitas K7 (e agora digitalizados) com registros do que aconteceu em 1977.

A partir desse ponto, os eventos de 1977 deixam de ser fatos que estamos testemunhando com nossos olhos (como se a câmera tivesse o poder de nos levar ao tempo dos eventos), mas algo que sabemos de segunda mão, pelo relato oblíquo das vozes que surgem do passado. Há aqui um truque narrativo maravilhoso. Aqui o cinema abdica da onisciência do narrador e assume a fragilidade da memória com todos os seus vieses.

O terceiro ponto que queremos destacar é o epílogo do filme. Essa é a parte mais eloquente: já estamos com os dois pés cravados em um presente incerto, 1977 é um artefato da memória; o menino, filho do protagonista, se faz adulto, um médico, mas ele simplesmente ignora tudo o que aconteceu.

Ele estava presente e ausente ao mesmo tempo dos eventos de 1977 e agora escolhe, deliberadamente, esquecer, deixar o passado no passado. Ele escolhe a amnésia para poder seguir adiante. Isso é o retrato de um Brasil que nunca soube fazer um ajuste de contas com a ditadura militar que, com o perdão da redundância, são mais regra do que exceção em nossa história.

É o gesto de fingir que aquilo não aconteceu, como estratégia para evitar conversas incômodas que possam comprometer encontros com amigos e familiares de interesses e visões de mundo distintas, ou gerar desconforto diante de grupos de referência pouco tolerantes à divergência.

No caso do personagem, fingir que aquilo não existiu pode ser uma forma de preservar a convivência sem maiores atritos com pares profissionais conservadores, insensíveis e individualistas. Ou ele mesmo se tornou assim? Distante daquilo que foram seus pais? O pen drive do final é o símbolo moderno que condensa fragmentos de histórias que ajudarão – ao personagem e a todos – compreender o que ele e a maioria da nação parece não querer enfrentar.

Se irá ouvi-lo – se iremos ouvi-lo – e refletir sobre tudo o que passou, o filme, obra aberta, deixa à consciência de cada um de nós. O passado mora no indeterminado, no porvir do passado que volta, no espaço do que nunca saberemos, da ignorância e do remorso coletivo.

Por fim, é importante destacar que tanto O Agente Secreto quanto Ainda Estou Aqui – da também esplêndida Fernanda Torres – recebem os mais merecidos aplausos dos mundos do cinema. O planeta passa a conhecer as feridas profundas do Brasil sob a ditadura militar, memórias que o cinema começa agora a contar.

Que americanos, africanos, europeus, asiáticos saibam que a violência e a brutalidade deixaram marcas que compõem a nossa formação. Não somos historiadores e, claro, podemos ser profundamente imprecisos aqui, mas tudo nos leva a crer que a ditadura militar inaugura o Brasil contemporâneo: das desavenças estúpidas, dos diálogos surdos, da ignorância orgulhosa.

É claro, a ditadura não inventou a violência, a corrupção e o degredo moral: a história de escravidão e escravizados vem de longe – também ela precisa ser contada pelo cinema –, mas foi a ditadura que, em certa medida, inventou o tipo de violência, de corrupção política e degredo social desinibidos que se pratica hoje.

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A ditadura que aparece em Ainda Estou Aqui e em O Agente Secreto foi também o confronto brutal com o Brasil “inventado” nos anos 1950: da Bossa Nova, do Cinema Novo, do Grande Sertão: Veredas, da primeira Copa do Mundo, de Maria Esther Bueno, de Éder Jofre, da construção de Brasília: tudo aquilo que se acreditava que viria a ser o Brasil, um projeto de emancipação coletiva interrompido. O fato é que a arte nos impede de “morrer de verdade”, O Agente Secreto e Ainda Estou Aqui nos ajudam a ajustar essas contas. Que venham outras obras, filmes, romances e músicas.