Tratamento para leucemia mieloide aguda enfrenta iniquidade no sistema de saúde

JOTA.Info 2026-01-19

A leucemia mieloide aguda (LMA) é uma doença rara que atinge a medula óssea dos pacientes com uma idade mediana ao diagnóstico de 66 anos[1-2]. Os pacientes nesta condição têm o acúmulo de células imaturas, substituindo as saudáveis e as células vermelhas responsáveis pela oxigenação começam a faltar no organismo, provocando anemia. No corpo dos pacientes há a produção de glóbulos brancos, glóbulos vermelhos e plaquetas anormais, que passam ainda a apresentar um crescimento anormal[3].

A manifestação da LMA é bem menos frequente na infância e, de modo geral, ocorre em pessoas acima dos 60 anos, chamados “grupo dos idosos”, como explica Dr. Eduardo Flávio Ribeiro, hematologista e membro do Comitê de Equidade da Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular (ABHH). “Os pacientes idosos ficam imunossuprimidos e com tendência a infecção. Então, as três marcas da doença são o acúmulo de glóbulos brancos por interferência no processo de fabricação deles, a falta de glóbulos vermelhos, que nós chamamos de anemia, e a falta de plaquetas, que aumentam chance de ter sangramento”, ilustra o hematologista.

Diferente de outros tipos de leucemias crônicas, a LMA demanda internação e uma série de procedimentos para classificar a doença e determinar se o tratamento deverá exigir terapias mais intensas. “Normalmente, o processo começa com a identificação do defeito na medula e a confirmação do diagnóstico. Em seguida, inicia-se o tratamento inicial, conhecido como indução de remissão, que tem como objetivo controlar a doença e recuperar a função da medula óssea, total ou parcialmente”, explica Dr. Ribeiro.

“Após esse processo, nos preparamos para a fase seguinte, que é a decisão sobre levar os pacientes para tratamentos mais intensos, ou não”, completa o hematologista.

As pessoas acometidas por esta condição podem não ser elegíveis à quimioterapia intensiva (por idade, perfil ou outras doenças associadas) e acabam não encontrando opções de tratamento disponíveis na saúde pública. Por ser um dos cânceres mais agressivos, a leucemia mieloide aguda possui a menor taxa de sobrevida entre as leucemias, assim como apresenta poucas opções de tratamento aos pacientes que não são elegíveis à quimioterapia intensiva[4-5].

Entre os pacientes, sendo grande parte deles inelegíveis à quimioterapia intensiva, a taxa de sobrevivência em cinco anos é de apenas 5%. Por outro lado, as taxas de hospitalização são frequentes e prolongadas e, além disso, cerca de 80% dos pacientes precisam fazer transfusões de sangue.

Desafios na jornada do paciente: as diferenças entre as redes pública e privada de saúde

O tratamento consolidado para a leucemia mieloide aguda, de acordo com o médico hematologista, é uma combinação de duas substâncias quimioterápicas, organizadas em um protocolo. Apesar de conseguir taxas de sobrevida que ultrapassam os 60% do grupo dos jovens, Dr. Eduardo Flávio pontua que este método de tratamento acaba não beneficiando e sendo elegível aos pacientes mais idosos.

“Quando esses pacientes idosos, mais frágeis, eram tratados com esse tratamento mais intenso, no primeiro mês a mortalidade poderia chegar até 30% ou 35%. Por isso, passou-se a ter um cuidado maior e tornou-se até impeditivo de se fazer essa terapia com pacientes de mais de 70 anos, sobretudo com mais de 75 anos, que ficavam à mercê de combinaçöes terapêuticas quase em caráter paliativo”, ressalta o especialista.

Nesse sentido, explica que os pacientes faziam terapias com intensidade muito menor e por um tempo mais estendido para aumentar a tolerância ao tratamento, o que gerava uma demanda maior por transfusão de sangue, frequentes internações e péssima qualidade de vida.

“Entendíamos que o paciente tinha condições de receber o tratamento e muitas vezes durante o processo percebíamos que ele não suportava. Para aqueles que suportavam e alcançavam boas respostas, propúnhamos transplante de medula óssea como terapia definitiva. Essa terapia, com internação, é capaz de possibilitar a cura, mas não é tolerado por todos e não é possível realizá-lo em todos os pacientes”, diz.

Desde 2018, no entanto, o médico avalia que, a partir do momento em que os médicos começaram a identificar a leucemia mieloide aguda não como uma doença única, mas como um grupo de patologias em que cada uma delas é caracterizada por uma ou mais mutações que se somam e geram um determinado comportamento, foi possível observar que algumas das mutaçöes são sensíveis a determinados tratamentos.

“Algumas dessas mutações são neutralizadas com medicações inovadoras que conseguem entrar na célula, e o processo de repovoamento da medula óssea ocorre”, destaca Dr. Eduardo Flavio.

Esses tratamentos que a ciência trouxe, segundo ele, são bem tolerados em pacientes mais idosos. Embora apresentem alguns efeitos colaterais, o hematologista pontua que eles são bem mais fáceis de serem manejados.

Além disso, destaca que os primeiros dados que vieram dessas novas combinaçöes terapêuticas foram um alento, visto que eles permitiram que pela primeira vez realizar terapias que pudessem aumentar a sobrevida global dos pacientes mais idosos, que geralmente ficava na faixa de 6 meses ou, em alguns casos, próxima dos 2 anos.

O Registro Brasileiro de Leucemia Mieloide Aguda (em inglês, Brazilian Acute Myeloid Leukemia Registry, ou RBLMA) mostrou que a sobrevida global (SG) dos pacientes tratados na saüde suplementar foi significativamente superior à dos pacientes tratados no Sistema Único de Saüde (SUS). A SG de pacientes tratados no sistema privado é 75% maior em comparação com o sistema público, com uma diferença de 15 meses na SG mediana.

“É uma evolução. E o que parece pouco, nessa faixa etária, dependendo de qual idade que o paciente tem, 82, 83 anos, é o tempo que ele tem para ‘arrumar a vida’. Então, foi um divisor”, comenta.

O hematologista ressalta que todos os pacientes do sistema privado de saúde já têm acesso a mais opções de tratamento desde 2018. O SUS, por sua vez, tem como opções de tratamento atuais recomendadas pelas Diretrizes Diagnósticas e Terapêuticas (DDTs) incluem quimioterapia intensiva e, para os que não são elegíveis, citarabina em baixa dose para controle da doença.

“Os pacientes do SUS continuam sendo tratados com terapias muito antigas, muito obsoletas. Temos duas gerações terapêuticas atrasadas no Sistema Único de Saúde. Há uma lacuna muito importante”, afirma.

CÓDIGO VEEVA: BR-ABBV-250662 JAN/2026


Referências

[1] Szer J. The prevalent predicament of relapsed acute myeloid leukemia. Hematology: American Society of Hematology Education Program. 2012. Disponível em: https://ashpublications.org/hematology

[2] Brasil. Ministério da Saüde. Leucemia mieloide aguda do adulto: diretrizes diagnósticas e terapêuticas. Brasília, DF. Disponível em: https://www.gov.br/saude Acesso em: 19 dez. 2025.

[3] American Cancer Society. What is acute myeloid leukemia (AML). 2020. Disponível em: https://www.cancer.org/cancer/acute-myeloid-leukemia/about/what-is-aml.html  

[4] Döhner H, et al. Acute myeloid leukemia. New England Journal of Medicine. 2015. Disponível em: https://www.nejm.org

[5] National Cancer Institute. Adult acute myeloid leukemia treatment (PDQ®): patient version. Disponível em: https://www.cancer.gov/types/leukemia/patient/adult-aml-treatment-pdq