JOTA Principal: A margem de Tarcísio para concorrer ao Planalto — e o palanque de Lula em São Paulo

JOTA.Info 2026-01-19

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Todos estão à espera de quem vai piscar primeiro.

A definição final do principal candidato de oposição à Presidência — se Flávio Bolsonaro ou, hoje menos provável, Tarcísio de Freitas — afeta a escolha do palanque governista em São Paulo.

A chance que o governador de São Paulo ainda tem de desbancar o filho e senador passa por uma prisão domiciliar do ex-presidente, na avaliação de aliados. Marianna Holanda analisa na nota de abertura.

Enquanto isso, o vice Geraldo Alckmin prefere permanecer onde está, e o futuro-ex-ministro Fernando Haddad não quer disputar nada. Mas ambos podem acabar respondendo a um chamado de Lula, ainda mais no caso de Tarcísio abrir mão da reeleição pela tentativa ao Planalto. A apuração de Beto Bombig e Fabio MuraKawa está na nota 2.

E, em meio às articulações eleitorais, o Supremo Tribunal Federal segue no centro das atenções — com o sigilo no caso Master e a instauração de uma nova apuração de ofício.

Boa leitura.


1. O ponto central: A margem de Tarcísio

Quase um mês após a divulgação da carta de Jair Bolsonaro selecionando Flávio para disputar a Presidência em 2026, o filho do ex-presidente subiu nas pesquisas, mas não empolgou aliados, Marianna Holanda analisa no JOTA PRO Poder.

  • Há um clima de desalento em setores do bolsonarismo, numa mistura de decepção com a escolha, mas sem disposição de abrir divergência às claras.
  • Lideranças religiosas, agronegócio e setores do mercado — que sempre tiveram predileção pelo ex-presidente — ainda resistem ao senador.
  • Em paralelo, a divergência na família também piorou.
  • Nas redes, os filhos do ex-presidente, a ex-primeira-dama e aliados trocam indiretas e divulgam notas, enquanto Flávio busca união em torno de sua candidatura.

Por que importa: A possibilidade de uma mudança de rumo é considerada remota, mas não impossível — até porque Bolsonaro é reconhecidamente imprevisível.

  • Michelle Bolsonaro nega que esteja na campanha pelo governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, mas os gestos públicos dela por Flávio foram considerados tímidos por aliados.
  • Além disso, Michelle se ressente pela forma como foi feito o anúncio: a carta foi escrita pouco antes de uma cirurgia e, antes disso, Michelle ficou sabendo da escolha do marido pelos jornais.

Um aliado próximo ao ex-presidente arriscou uma projeção.

  • Ele avalia em 1% as chances de Tarcísio ainda ser candidato à Presidência da República, com duas condicionantes.
  • Para ele, isso pode acontecer num cenário em que o desânimo com a campanha de Flávio permaneça até meados de março e abril e em que o ex-presidente esteja em prisão domiciliar.
  • É por isso que aliados têm insistindo tanto nessa tecla — além, por óbvio, das preocupações com o quadro de saúde.
  • A avaliação desse aliado de Bolsonaro, compartilhada por tantos outros que não se arriscam a projetar um número, é de que, em casa, o ex-presidente teria mais acesso a informações e outras pessoas poderiam discutir política e tentar dissuadi-lo.
  • Hoje o ex-presidente tem visitas restritas de Michelle e dos filhos, os dois lados da polarização familiar. E, neste caso, a ex-primeira-dama está em minoria.

🔭 Panorama: Michelle e Tarcísio estiveram com Alexandre de Moraes para pedir por uma domiciliar para Bolsonaro num movimento independente, costurado sem o apoio das alas mais radicais do bolsonarismo.

  • Coube ao ex-líder do PL na Câmara Altineu Côrtes (RJ) ajudar a fazer a ponte.
  • A decisão de Moraes de enviá-lo para a Papudinha após o encontro foi vista como um gesto a essa ala mais pragmática, um resultado da atuação de Michelle.
  • Além disso, segundo relatos, o magistrado também teria prometido no encontro realizar uma perícia a respeito da saúde do ex-presidente, o que fez em seguida.

O fato de a atuação de Michelle e Tarcísio ter gerado resultados amplia o clima de tensionamento, cuja consequência direta é aumento das cobranças em cima de do governador.

  • Aliados de Flávio querem gestos mais enfáticos do governador para que os que articulam por ele se convençam de vez que o candidato é o senador.
  • A hora certa de Tarcísio pode depender daquele 1%.
  • Mas a campanha de Flávio vai aumentar a pressão a fim de reduzir mais e mais essa margem.

Aliás… Flávio começa hoje (19) uma viagem a Israel e que pode se estender a países da Europa.

  • Ele e Eduardo foram convidados para uma conferência de combate ao antissemitismo em Jerusalém, em 26 e 27 de janeiro, com a presença do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, registra a Folha de S.Paulo (com paywall).

2. O palanque paulista

Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil – 30.jun.2025

Lula deu início na semana passada nas articulações para o palanque em São Paulo, estado estratégico para os planos de reeleição do petista, Beto Bombig e Fabio MuraKawa escrevem no JOTA PRO Poder.

  • O presidente teve conversas com o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e com o vice-presidente Geraldo Alckmin, nomes preferidos de Lula e do PT para disputar o Bandeirantes.
  • As conversas não tiveram desfecho conclusivo, segundo relatos, mas tanto Alckmin como Haddad deixaram claro que não gostariam de disputar contra Tarcísio.
  • O vice e o ministro são cotados tanto para o governo como para o Senado — e uma “chapa dos sonhos” da esquerda paulista seria formada pelos dois.

Por que importa: A possibilidade de uma candidatura ao Executivo estadual pode crescer caso Tarcísio consiga se viabilizar para a disputa presidencial, cenário que hoje não é visto como o mais provável.

  • Ainda assim, Alckmin pretende permanecer onde está, enquanto Haddad quer atuar como principal coordenador da campanha de Lula neste ano.

Diante da indefinição, ganhou força nos últimos dias o nome de Simone Tebet para concorrer ao governo paulista.

  • Em 2022, quando disputou o Planalto, ela teve desempenho acima de sua média nacional no estado e ficou em terceiro lugar, com 6,34% dos votos válidos.
  • A ministra do Planejamento recebeu convite para se filiar ao PSB e deve se reunir com Lula até o fim do mês para definir seu futuro eleitoral.
  • Tebet, que tem base política no Mato Grosso do Sul, onde se elegeu senadora em 2014, é vista como uma peça estratégica, capaz de conquistar apoios no agronegócio e atrair eleitores de classe média que historicamente rejeitam o PT em São Paulo.
  • Segundo interlocutores, ela seguirá a decisão de Lula, podendo ser candidata ao governo ou ao Senado.

Outros dois nomes citados como possíveis candidatos são os de Márcio França (PSB) e Marina Silva (Rede).

  • Líderes partidários avaliam que apenas com esses quatro nomes Haddad, Alckmin, Marina e França seria possível montar uma chapa competitiva em São Paulo, com um candidato ao governo, um a vice e dois ao Senado.

⏩ Pela frente: Em privado, dirigentes dos principais partidos que apoiam Lula em São Paulo avaliam que a definição passará pela decisão de Tarcísio sobre concorrer ou não à reeleição.

  • A meta do PT é manter o desempenho de Lula no mesmo patamar de 2022 e, se possível, ampliá-lo, especialmente se o adversário no segundo turno for Flávio Bolsonaro.
  • Apesar da derrota no estado, o presidente obteve 44,76% dos votos válidos, o equivalente a 11.519.882 votos, contra 55,24% do adversário, que somou 14.216.587 votos no segundo turno.
  • Essa votação foi considerada determinante para a vitória do petista.
  • Quatro anos antes, em 2018, Bolsonaro havia aberto uma diferença de 35,94 pontos percentuais sobre Fernando Haddad no segundo turno.
  • Caso o candidato seja Tarcísio, a tarefa petista se torna mais complexa.

3. Sob sigilo, pt. 1

Rosinei Coutinho/STF

Integrantes do governo veem com apreensão a investigação aberta de ofício pelo ministro Alexandre de Moraes contra a Receita Federal e o Coaf para apurar vazamentos sobre familiares de magistrados, Marianna Holanda e Flávia Maia escrevem no JOTA PRO Poder.

  • Na avaliação desses interlocutores, a apuração tem potencial para gerar uma crise que pode ficar fora de controle.
  • O momento é de cautela, uma vez que não está claro o escopo da investigação, como ela será conduzida e até onde pode chegar — afinal, está sob sigilo.
  • Há incômodo entre uma ala de ministros com os vazamentos de informações de parentes, como o contrato do escritório da esposa de Moraes, a advogada Viviane Barci, com o Master.

🕵️ Nos bastidores: A crise foi tema de uma reunião no Planalto com Moraes, Lula, Fernando Haddad, o secretário da receita, Robinson Barreirinhas, e outros envolvidos.

  • Oficialmente, o assunto seria segurança pública.
  • No geral, a avaliação é de que as revelações envolvendo o Master podem acirrar a crise entre os Poderes e até chegar a autoridades públicas, mas que o presidente — por ora — está afastado desse foco de problema.

4. Sob sigilo, pt. 2

Gustavo Moreno/STF

O ministro Dias Toffoli prorrogou por mais 60 dias o inquérito no Supremo que investiga fraudes no Banco Master, Lucas Mendes e Flávia Maia escrevem no JOTA.

  • O pedido foi feito pela Polícia Federal — e a prorrogação se dá em meio a um desgaste entre Toffoli e a corporação por conta da operação Compliance Zero, na última quarta (14), em que a corporação demorou para deflagrar a ação autorizada pelo magistrado.
  • O ministro reclamou que a demora poderia atrapalhar as investigações e pediu explicações para o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues.

Por que importa: A prorrogação do prazo demonstra que o ministro deve continuar à frente das investigações, apesar da pressão para que ele deixe a relatoria do caso após reportagens revelarem negócios da família dele com fundos ligados ao Master.

  • A condução da investigação por Toffoli vem gerando críticas de advogados, especialistas e da imprensa.
  • Entre as medidas criticadas estão o sigilo absoluto, a investigação no STF, a retirada da custódia das provas da PF para a Procuradoria-Geral da República e a indicação de peritos específicos para a análise das provas apreendidas.

⏩ Pela frente: Na sexta (16), o ministro determinou à PF a alteração no cronograma dos depoimentos dos investigados para concentrar as diligências em apenas dois dias — antes, eram seis.

  • Os depoimentos se dariam entre a última semana de janeiro e a primeira de fevereiro próximo

5. Sem parar

Gustavo Moreno/STF

Flávio Dino determinou na sexta (16) que o Ministério da Saúde apresente um plano emergencial para recompor a capacidade de trabalho do Departamento Nacional de Auditoria do SUS (DenaSUS), responsável pela avaliação interna da aplicação de recursos no SUS, Lucas Mendes relata no JOTA PRO Poder.

  • O objetivo é que o órgão consiga fazer frente aos “novos desafios” da “parlamentarização” das despesas na área da saúde, com o aumento de recursos via emendas, segundo a decisão do ministro.
  • O plano deverá ser apresentado pela pasta em 30 dias.

🏥 Panorama: O DenaSUS perdeu aproximadamente 50% de sua força de trabalho entre 2001 e 2025, segundo dados do governo.

  • Dino destacou a necessidade de acompanhamento e fiscalização do dinheiro empregado na saúde via emendas.
  • Ele citou que o montante de emendas para a área saiu de R$ 5,7 bilhões, em 2016, para R$ 22,9 bilhões, em 2023, atingindo o patamar de R$ 26,3 bilhões em 2025.
  • Dino também cobrou que o DenaSUS refaça um cronograma de fiscalização de contas bancárias para o recebimento de recursos de emendas pendentes de regularização.
  • Segundo o ministro, a finalização das auditorias não pode ultrapassar o atual mandato do Executivo Federal. Antes, o órgão informou que terminaria o trabalho em 2027.
  • De 497 contas analisadas, para 291 é recomendada a realização de auditoria, segundo dados enviados ao STF.

6. Ano novo, comissões novas

Bruno Spada/Câmara dos Deputados

As negociações em torno das presidências das comissões da Câmara neste ano devem ganhar corpo nesta e na próxima semana.

  • A primeira reunião de líderes do ano está marcada para 28 de janeiro, quando as conversas de bastidores chegarão à superfície.

Por que importa: Comissões mais poderosas podem gerar disputas, como a CCJ, que analisa todos os projetos que não vão diretamente ao plenário, e a Comissão de Saúde, que controla a maior fatia de emendas de comissão.

  • Alguns partidos, como o PL, querem negociar a permanência da chefia das comissões que já controlam.
  • Nas lideranças partidárias, poucos grandes partidos terão mudanças: no PT, Lindbergh Farias (RJ) será substituído por Pedro Uczai (SC); no PSB, Pedro Campos (PE) dará lugar a Jonas Donizete (SP).
  • Nos partidos de centro, como PSD, MDB, PP e União, a movimentação gira em torno da recondução dos líderes atuais: Antônio Brito (PSD-BA), Isnaldo Bulhões (MDB-AL), Dr. Luizinho (PP-RJ) e Pedro Lucas Fernandes (União-MA).

No Senado, a divisão é feita a cada dois anos e, em 2026, seguirá a definição feita no início de 2025.


7. Tensão na Europa

Demetrius Freeman/The Washington Post via Getty Images

Donald Trump levará nesta semana a Davos, na Suíça, a maior delegação dos Estados Unidos já presente em uma edição do Fórum Econômico Mundial, segundo o Financial Times (com paywall).

Por que importa: As recentes investidas de Trump contra a Groenlândia estão no centro das discussões na Europa.

  • O presidente americano ameaçou aplicar tarifas a partir de fevereiro contra oito países europeus que se opuseram à intenção dele de anexar a Groenlândia.
  • Líderes europeus responderam com ameaças de tarifas contra os Estados Unidos e restrições à atuação de empresas americanas no bloco.
  • Os governos de Alemanha e França buscam uma resposta coordenada, em uma reunião marcada para esta segunda (19), e os 27 líderes da União Europeia terão um encontro de emergência ainda nesta semana.
  • Em Davos, além de Trump, têm presença confirmada o presidente da França, Emmanuel Macron, o chanceler alemão, Friedrich Merz, e o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, entre outras autoridades europeias de primeiro escalão.
  • Por ora, haverá somente uma autoridade de alto escalão do governo brasileiro: a ministra da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos, Esther Dweck.