Tarcísio corre risco de repetir Serra-2006 e perder Presidência 4 anos depois

JOTA.Info 2026-08-10

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), pode ter o mesmo destino do tucano histórico José Serra, que ocupou o Palácio dos Bandeirantes entre 2007 e 2010 e muitos diziam estar fadado a ser governador e que acabou derrotado duas vezes pelo PT na eleição presidencial?

A pergunta é pertinente considerando que, caso confirme o favoritismo para ser reeleito pela ampla aliança de direita que costurou, Tarcísio será automaticamente considerado pelo mundo político, pela mídia e pela Faria Lima o principal candidato à Presidência em 2030, hipótese que ganhará ainda mais força no cenário de Lula (PT) ser reeleito e Flávio Bolsonaro (PL) perder o pleito de outubro.

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Os tempos, no entanto, mudaram: estamos muito mais à direita do que à esquerda, diferentemente do cenário que Serra — que, aliás, era presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE) quando ocorreu o golpe militar de 1964 e nunca esteve propriamente à direita — enfrentou no começo deste século, como candidato do PSDB ao Planalto nas eleições de 2002 e 2010.

Porém, principalmente no pleito de 2010, após uma gestão bem-sucedida como governador de São Paulo e do desgaste natural de um ciclo de oito anos de esquerda na presidência sob Lula (2003-2010), Serra parecia ter tudo para derrotar Dilma Rousseff e encerrar o período do PT no poder. Falou mais alto a gastança empreendida por Lula, em parte justificável por conta dos efeitos da crise de 2008, mas também uma bomba que só explodiu no fim do primeiro mandato da presidenta.

Em última instância, somada aos erros da pupila errante do atual presidente, a gastança iniciada em Lula 2 levou o Brasil a enfrentar sua pior crise do século e, claro, ao próprio impeachment de Dilma. Por mais que a esquerda diga que tenha sido um golpe, o processo desfrutou de grande apoio popular.

Como o impeachment é instrumento essencialmente político, prevaleceu a lógica e a primeira presidente eleita da história brasileira caiu. A Lava Jato, por mais odiosa que tenha se revelado, foi apenas a cereja no bolo do descontentamento do PT e da ascensão do bolsonarismo, que decorre de transformações sociológicas mais complexas — notadamente a ascensão evangélica.

No último domingo (9/8), Tarcísio e o atual pupilo de Lula, Fernando Haddad, se enfrentaram no primeiro debate da corrida deste ano para o Governo de São Paulo, muito provavelmente antecipando o confronto presidencial em 2030: dois homens essencialmente técnicos, não obstante suas claras diferenças ideológicas.

Tarcísio segue firme na lógica de privatizar tudo e mais um pouco, lambendo as botas de Donald Trump ainda que hoje renegue apoio ao presidente americano e, claro, de seu criador, Jair Bolsonaro, a quem jurou gratidão eterna porque patrocinou sua entrada na política partidária.

Haddad, por sua vez, tal como na gestão do Ministério da Fazenda entre 2023 e 2026, busca um equilíbrio claro entre as forças de mercado e a necessidade de manter um Estado soberano e eficiente num país como o Brasil, amplamente desigual e ainda uma potência emergente.

Ambos talvez devessem ouvir o que certa vez um tucano falou. Fernando Henrique Cardoso chegou a dizer que ele, com progressiva inclinação à direita, e Lula, mais à esquerda, eram políticos macunaímicos e detinham um estilo bastante peculiar na Presidência. No caso de Lula, referia-se aos dois mandatos iniciais. FHC chegou ainda a listar Serra e Alckmin, presidenciáveis tucanos no século 21 ao lado de Aécio Neves, como não macunaímicos. Dilma também entraria nessa categoria, com seu perfil tecnocrático.

Para 2030, seria bom que Haddad e Tarcísio, direita, esquerda e o establishment em geral, ficassem de olho em um macunaímico por excelência: Eduardo Paes (PSD), carioca tal como Tarcísio, eleito quatro vezes prefeito do Rio de Janeiro e atual candidato ao governo fluminense apoiado por Lula. Paes lidera as pesquisas de intenção de voto a ponto de ter chances de ganhar no primeiro turno contra outros quatro candidatos competitivos.

Paes convenientemente faltou ao primeiro debate da disputa, mas já constrói pontes capazes de formar um consenso de centro para eliminar em 2030 a polarização entre esquerda democrática e direita golpista, ainda que por meio de práticas questionáveis, como aquela em que a Prefeitura do Rio de Janeiro, logo após sua reeleição em 2024, sucumbiu ao lobby evangélico e permitiu a criação com dinheiro publico do Parque Terra Prometida, voltado ao público cristão.

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Não adianta Tarcísio e Haddad decorarem números. Não adianta se fazerem, respectivamente, de pupilos de Bolsonaro, um golpista macunaímo, e Lula, um democrata macunaímo. É necessário seguir os mandamentos da política; e, se há um decálogo da política, o primeiro deles é: não complicarás o seu discurso.

No mais, terás carisma. Haddad e Tarcísio estão anos-luz atrás de Paes neste quesito, que pode até fazer um trocadilho com seu nome e prometer trazer, finalmente, paz ao ambiente conturbado da política brasileira em 2030, numa eventual corrida ao Planalto. Ou em 2034, unindo evangélicos e sambistas, gregos e troianos e quiçá bolsonaristas e lulistas.